Num prédio onde moram apenas jovens deve haver, no mínimo, coisas interessantes ou excêntricas acontecendo. Talvez não tao excêntricas, mas, acredito, interessantes. Quando estes jovens vêm de toda e qualquer parte do mundo, supõem-se que estas coisas sejam ainda mais interessantes. Ou, quem sabe, de fato excêntricas. É assim uma Wohnheim: uma espécie de pensão para estudantes e, como já disse, de várias partes do globo. Viver num local como esse oferece, pra quem gosta de observar pessoas, gestos, costumes, atos, olhares, sons e outras tantas coisas observáveis e apreensíveis, um caleidoscópio daquilo que se chama vida. Ainda que em manifestações engraçadas ou – para não repetir excêntricas – estranhas.
Lembro da primeira alemã que conheci aqui. Ela se chama Anne. Na verdade, Annika. Num primeiro momento, bem simpática, perguntas costumeiras: “Você é nova aqui?”, “De onde vem?”, “Estuda o quê?” e, em seguida, o já esperado e distante “Olá, como vai?”. Me pareceu alemã típica: loira, olhos azuis e reservada, exceto pela altura – é menor que eu! Desfazendo um pouco da reserva conversamos sobre os respectivos namorados. Eu comecei, claro:
“Ai, que saudade do meu namorado...”
“Ah, também tenho saudade do meu.”
“Ué, ele não tá aqui?”
“Que nada! É francês, mas vem me visitar em breve!”
“É, espero que dê certo o Thomas vir me visitar também.”
“Bom, torço por vocês!”
O francês veio afinal! E até, então, eu não havia visto ninguém aqui sorrir pras paredes! Incrível ver como o amor faz bem. Eles estavam mesmo muito felizes e era até agradável ficar perto dos dois. Foram umas duas semanas de risadas vindas do banheiro, risadas vindas da sala, risadas vindas do final corredor e risadas vindas até da varanda! Mal acreditei quando vi, num dia de sol lindo, eles dois na varanda e ela até gritando pra uma amiga no meio da rua, o que é bem raro aqui. O que eu não sabia era que aquele dia era o dia de ele ir embora. Um pouco mais tarde a encontrei na cozinha só, o que nas últimas duas semanas não tinha acontecido, com o olhar fixo num ponto qualquer e a TV ligada como quando se liga apenas pra se ter a sensação de não estar só. E reconheci naquilo tudo as vezes em que fixo meu olhar num ponto qualquer, numa imagem qualquer lembrando do Thomas. Qualquer pessoa que vê de fora sabe que o que menos se faz nesta hora é ver.
“Seu namorado já foi...?” – Ousei perguntar.
Um “Sim...” que escapou pelos lábios que ela mordeu e acompanhado de um manejo de cabeça me mostraram que ela sentia a mesma dor que eu... Saudade... E eu não consegui dizer outra coisa que não fosse “Ai, cara...”. Alguns instantes depois, ela foi para o quarto pra voltar algumas horas depois refeita, como a Anne dos primeiros dias. Reservada, mas cumprimentando sempre. E, pelo que demonstrou outro dia desses, torcendo por mim e pelo meu amor.
Susy Almeida
Colônia, 21.10.08
Lembro da primeira alemã que conheci aqui. Ela se chama Anne. Na verdade, Annika. Num primeiro momento, bem simpática, perguntas costumeiras: “Você é nova aqui?”, “De onde vem?”, “Estuda o quê?” e, em seguida, o já esperado e distante “Olá, como vai?”. Me pareceu alemã típica: loira, olhos azuis e reservada, exceto pela altura – é menor que eu! Desfazendo um pouco da reserva conversamos sobre os respectivos namorados. Eu comecei, claro:
“Ai, que saudade do meu namorado...”
“Ah, também tenho saudade do meu.”
“Ué, ele não tá aqui?”
“Que nada! É francês, mas vem me visitar em breve!”
“É, espero que dê certo o Thomas vir me visitar também.”
“Bom, torço por vocês!”
O francês veio afinal! E até, então, eu não havia visto ninguém aqui sorrir pras paredes! Incrível ver como o amor faz bem. Eles estavam mesmo muito felizes e era até agradável ficar perto dos dois. Foram umas duas semanas de risadas vindas do banheiro, risadas vindas da sala, risadas vindas do final corredor e risadas vindas até da varanda! Mal acreditei quando vi, num dia de sol lindo, eles dois na varanda e ela até gritando pra uma amiga no meio da rua, o que é bem raro aqui. O que eu não sabia era que aquele dia era o dia de ele ir embora. Um pouco mais tarde a encontrei na cozinha só, o que nas últimas duas semanas não tinha acontecido, com o olhar fixo num ponto qualquer e a TV ligada como quando se liga apenas pra se ter a sensação de não estar só. E reconheci naquilo tudo as vezes em que fixo meu olhar num ponto qualquer, numa imagem qualquer lembrando do Thomas. Qualquer pessoa que vê de fora sabe que o que menos se faz nesta hora é ver.
“Seu namorado já foi...?” – Ousei perguntar.
Um “Sim...” que escapou pelos lábios que ela mordeu e acompanhado de um manejo de cabeça me mostraram que ela sentia a mesma dor que eu... Saudade... E eu não consegui dizer outra coisa que não fosse “Ai, cara...”. Alguns instantes depois, ela foi para o quarto pra voltar algumas horas depois refeita, como a Anne dos primeiros dias. Reservada, mas cumprimentando sempre. E, pelo que demonstrou outro dia desses, torcendo por mim e pelo meu amor.
Susy Almeida
Colônia, 21.10.08
Ai, eu não tinha visto essa não... Ainda bem que esse blog existe... Pelo menos vejo tudo.
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