sábado, 16 de maio de 2009

Crônicas do Velho Mundo novo - Maria, Maria


"Engraçado, vocês se conheceram hoje, mas parece que já faz um bom tempo”. Lembro de o Léo, amigo querido e psicólogo há pouco tempo, ter usado exatamente estas palavras ao falar de mim e da Maria, depois de um passeio a três lá pelo fim do mês de julho de 2007, quando Maria visitou o Brasil pela primeira vez. Sim, havia conhecido Maria pessoalmente naquele dia de manhã bem cedo. Até então ela era um perfil entre a lista de amigos no Orkut e colega de um amigo brasileiro que mora em Munique.

Penso que um dos eventos da vida que prescinda de explicações, até porque afeição não se explica, seja exatamente esta capacidade de afeiçoar-se a outros – ou negá-los – sem que aparentemente haja motivo. Algumas pessoas parecem ter uma certa ressonância com a gente. O fato é que desde o começo eu me entendi muito bem com a Maria. Abri as portas da minha casa, apresentei minha família, mostrei meu quarto, livros e CDs, minha cidade, meus lugares preferidos e até alguns segredos – porque falar da vida em língua estrangeira é mais fácil que em língua materna.

Pouco mais de uma semana depois Maria foi para Teresina, morrer de calor e conhecer um pouco mais do Brasil. Mas este mundo pós-moderno bem tem seus artífices para relativizar distâncias e assim a gente sempre manteve contato e acompanhou os acontecimentos da vida uma da outra. Além disso, quem já se falava constantemente a um oceano de distância e sem se conhecer não poderia deixar de se falar estando por assim dizer ao lado e já tendo se conhecido. Sei que Maria conheceu o Brasil mais que eu e foi embora em outubro de 2007, não sem passar em Fortaleza seu último dia e sem dizer que ficaria muito feliz se pudesse me ver na Alemanha em 2008. O tempo foi passando e ela soube de muita coisa que ocorreu no meu mundo entre novembro de 2007 e agosto de 2008, assim como eu também soube de muita coisa do mundo dela. Uma das coisas interessantes em ser mulher é a capacidade de fazer com que a alegria ou tristeza da outra sejam “suas” mais rápida e profundamente que os homens – pelo menos assim escuto desde (o meu) sempre. Lembro de ela ter ficado feliz ao saber do Thomas, meu precioso bem-querer e amor, e ao saber que me veria ainda em 2008. Lembro também de ter ficado feliz ao saber que ela iria passar uns bons meses em Paris e ao saber, ao longo destes bons meses, de um certo francês.

Ver Maria foi muito bom! Ela me abriu as portas de sua casa, apresentou sua família, mostrou seu quarto, livros e CDs, sua(s) cidade(s), seus lugares preferidos e até alguns de seus segredos – porque é preciso falar da vida, ainda que em língua materna. Conversamos sobre tudo: amor, faculdade, cozinha, cultura brasileira e alemã, inclusive as relações entre as duas, história, medos e anseios femininos, possíveis complexos históricos dos brasileiros e dos alemães, talvez um pouco de política, Deus e sexo. E de tanto falarmos de nossas vivências, eu, que considerava a música Maria, Maria, do Milton, uma música para a mulher brasileira, entendi que Maria também traz no corpo essa marca que faz com que se misture a dor e a alegria. Dar-se à dor nunca foi meio de extirpá-la. Vi ainda com mais clareza que Maria é de um som e de uma cor que se traduz em alerta, em raça, em gana. A vida de quem tem uns 20 anos bem consegue ter seus pesos e é preciso possuir a estranha mania de ter fé na vida. Vi que Maria, mesmo em meio a toda aquela explosão de idéias, atividades, pensamentos, vontades e inquietudes, poderia ser definida como uma mulher que merece viver e amar, assim como eu e outra qualquer do planeta. E vi que na vida é muito bom encontrar gente que é apenas... gente.

Susy Almeida

Colônia, 15 de janeiro de 09

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