terça-feira, 26 de maio de 2009

Crônicas do Velho Mundo novo - Se “Pode ser...” não pudesse ser

Certa vez me escreveram pedindo para que as Crônicas do Velho Mundo novo tratassem dos costumes dos alemães em si, e não tanto de minhas experiências. Embora acredite que as crônicas tragam nas entrelinhas muitos dos costumes da gente daqui – até porque escolhi o 'dito através do não dito' por querer renunciar a descrições enfadonhas e desinteressantes – e apesar de querer trazer, sim, minha perspectiva daquilo que é vivido, esta crônica precisava ser escrita.

No café da manhã de um dia destes, estavam na cozinha eu, duas alemãs, Aysche e Lydia, e um árabe, Maged. Aysche, alemã típica apesar do nome turco e dos tons escuros no cabelo e nos olhos, falou sobre uma colega de trabalho. Disse que esta garota a adicionou no StudiVz, que é um site de relacionamentos onde estudantes universitários do país inteiro se encontram, por assim dizer. O fato é que Aysche não hesitou em negar o convite nem em justificar a negação. Escreveu para a menina uma sincera justificativa que tomo a liberdade de traduzir:

"Olha, sinto muito, mas não vou adicioná-la. Nada contra você. Até a considero bem inteligente, mas é que nunca poderemos ser amigas. Nossas características simplesmente não batem e por isso acho que não dá."

Boa parte de vocês está pensando agora: “Meu Deus, como eles são brutos!”, englobando neste eles os alemães todos! Mas já estou aqui há mais de sete meses e sei que, inclusive no que diz respeito à minha colega de Wohnheim, não se trata de grosseria. Gente grosseira existe onde houver gente e dizer que os alemães são grossos é o mesmo que dizer que no Ceará todos são como Seu Lunga. No caso de minha colega, que acredito ter sido a alemã da Wohnheim que mais foi gentil comigo até agora, trata-se de uma característica – essa sim – bem alemã: a incrível capacidade de ser direto, de dizer sim ou não e assim escapar o mais que se pode das situações que não se quer criar ou viver.

Maged perguntou um tanto abismado: “Mas como assim você diz algo deste jeito?!”. Minha colega não titubeou: “Ora, é melhor do que aceitar o convite e sempre ter que evitar a menina quando ela aparecer na minha frente! Não dá! Ela só fala de si o tempo inteiro e não ouve ninguém! Sempre interrompe os outros pra poder falar!”. Rindo um pouco da situação, discutimos o que teria sido mais superável para a menina que foi preterida, digamos assim – se é que ela havia se importado com isso. Aysche disse ainda ter se disponibilizado para dizer a ela, caso quisesse, que características eram assim tão divergentes ao ponto de impedir uma amizade. As coisas aqui parecem realmente ser preto no branco.

Me lembrei, então, de minha irmã mais velha e minha melhor amiga. Acredito que ambas aproximam-se um pouco mais desta objetividade e, claro, declinam daquele “Pode ser...” brasileiro pronunciado com um meneio leve de cabeça para o lado que em boa parte das vezes quer muito mais dizer que não pode ser. Claro, exatamente por isto já vi as duas serem tidas por antipáticas ou mesmo soberbas. E me lembrei das situações chatas em que me meti porque a tal objetividade faltou, de circunstâncias em que ser clara e direta teria facilitado a vida, por mais que se tratasse de algo bobo como um convite ou scrap no Orkut, por exemplo. Lembrei também das inúmeras vezes em que vi gente falar mal dos outros – e aqui me incluo – sem sinceridade suficiente para dizer à pessoa tema da conversa o que traz ou não traz problemas e assim resolvê-los, quem sabe.

Dias depois perguntei à Aysche como a história toda havia terminado. A menina considerou a resposta dela, sobretudo a parte sobre ela dizer que características eram tão divergentes. Perguntou à minha colega de Wohnheim e ela foi novamente clara: falou tudo o que havia nos dito. Com muita educação e gentileza, mas disse! A menina agradeceu a sinceridade. Parece ter visto nisso ensejo para pensar sobre si. Conheço umas poucas pessoas que ouviriam dessa maneira uma crítica vinda de alguém que na verdade nem íntimo é. Bem poucas. E não me incluo neste grupo. Não quero que se pense que se trata daquele comportamento “provincial” que diz que tudo que é de fora é melhor – na verdade, em termos de comportamento, este é um dos que mais repudio –, mas tem me parecido que o contraste do preto com o branco é, sim, digno de ser feito, que seria melhor se o “Pode ser...” de que falei acima não pudesse ser.

Susy Almeida

Colônia, 02/05.04.09

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