quinta-feira, 14 de maio de 2009

Crônicas do Velho Mundo novo - O calor dos alemães

O clichê diz que os alemães são frios, grossos, antipáticos e reservados. Fico apenas com o último adjetivo. Sim, são reservados. Frios, grossos e antipáticos não. Pelo menos não em regra, como também não é regra que todo cearense tenha uma tão conhecida característica “lunguiana”! O fato é que minhas andanças por esta cidade e por outras perto de Colônia me fizeram ver que os alemães são calorosos. Mas calorosos de um calor que eu chamo de escolhido e meticuloso. É preciso tempo para abraçar e andar de mãos dadas, mas se abraça – e até muito – e os casais que circulam pelas ruas mostram que as mãos se dão constantemente. Quanto ao quesito tempo, três meses no Brasil já seriam suficientes para duas amigas ou colegas se abraçarem, ainda que brevemente, mas em três meses eu dei ou recebi a quantidade incrível de dois abraços. Um quando Aysche, a “rainha” do 305, fez aniversário – e foi um abraço de “meio-braço” – e o outro quando uma italiana que morava aqui voltou para casa. Mas o carinho para com aqueles que já ultrapassaram as fronteiras do espaço individual merece ser comentado.

No restaurante universitário é onde mais exercito minha capacidade de observar os outros. E, sim, já vi inúmeros casais entrarem ou saírem juntos, mas um que estava hoje na fila perto de mim me chamou a atenção. Alemães típicos: ele e ela relativamente altos, loiros, brancos e olhos azuis. Vi na hora em que se beijaram de um beijinho simples e até infantil, sem deixar que o barulho e a gente toda incomodassem aquele momento. E vi na hora em que ele terminou o beijinho e ficou olhando pra ela, ainda na atmosfera que ele havia acabado de deixar, com um sorriso saindo pelo canto do olho. Foi quando ela abriu os olhos e olhou tão dentro dele, ao que ele respondeu com outro beijinho. Observando as reações e os olhares dos dois, pensei: “Sei o que é.”. E assim se deixaram ficar uns bons minutos, alimentando minha saudade de desempenhar aquele papel no Pici ou nas Casas de Cultura, como tantas vezes fiz com o Thomas.

Outro dia fui assistir à apresentação de um coral e vi logo que cheguei que havia muita gente entre 30 e 60 anos. Sentei-me atrás de um casal de idosos. E me deixei ficar contemplando os dois um certo tempo depois que a senhora, talvez 60 anos, beijou o senhor no rosto com uma felicidade de “Susy no cinema com o Thomas”. Procurei as mãos e elas estavam tão unidas...! Desde então tenho percebido quantos casais idosos andam na rua de mãos dadas e quantos, como hoje, conversam e riem um tanto alto. Parece, penso, que a expressão “estou-muito-velho-pra-isso” não tem muita validade aqui.

Ontem, na estação principal de Bonn, vi que o trem que estava na plataforma ainda demoraria alguns minutos para sair, o que me inquietou um pouco, porque meu cansaço queria meu quarto. Mas o que me inquietou com certeza tranqüilizou o coração da mulher de mais ou menos 40 anos que estava olhando para dentro do trem, já de portas fechadas. Olhei também e vi outra mulher de mais ou menos 40 anos um tanto parecida com a primeira, o que me fez supor que seriam parentes. Pouco depois o trem começou a se mover lentamente. A mulher sobre a plataforma colocou, então, a mão sobre o vidro da porta. A que estava dentro do trem, em resposta, também colou a mão ao vidro, na mesma altura da primeira. Tive um leve espanto. Aquilo me pareceu tão lindo! E assim a mulher sobre a plataforma acompanhou o trem até que ele arrancasse de vez. Quando virou-se, o rosto em lágrimas. Tive o ímpeto de perguntar quem era, mas me contive. Fiquei, assim, pensando nas mulheres de mais ou menos 20 anos que moram na minha casa e que tem uma certa semelhança comigo, o que faz com que todos que não nos conhecem suponham que sejamos irmãs.

Susy Almeida

Colônia, 01.12.08

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