domingo, 24 de maio de 2009

Crônicas do Velho Mundo novo - De 2008 para 2009 ou Os segredos dos anos


Já faz quase um mês que 2009 começou, mas a crônica do dia de São Silvestre ainda não foi escrita e ficou durante quase este mês inteiro indo de um lado a outro da minha cabeça, enquanto outras idéias chegavam e brigavam com ela por algum espaço.

Se as festas de fim de ano são passadas com gente conhecida, com família, amigos ou namorado, o Réveillon 2008 / 2009 foi vivido com gente que conheci e só vi, pelo menos até hoje, naquele dia. Com exceção da Katharina, primeira alemã que se tornou minha amiga e que vivenciou comigo os últimos dias do ano, e a Johanna, alemã que conheci na igreja que visito aqui, os outros todos me foram apresentados poucas horas antes de entrar neste ano. Sim, lembrei o tempo todo da minha família e do meu amor. O Réveillon 2007 / 2008 foi bem revivido e relembrado, embora não tenha falado a ninguém dele. Mas deixei a sensibilidade e a atenção abertas às peculiaridades de uma virada em terra estranha, no sentido apenas de não ser a própria.

Mais ou menos no fim de novembro, Johanna me convidou para passar a virada com ela e seus amigos numa noite de comes-e-bebes. “Eu e meus amigos vamos organizar uma festa e acho que seria bem legal pra você. Com certeza você vai conhecer muita gente e vai falar alemão a noite inteira.”. Verdade. Éramos mais ou menos umas catorze pessoas, talvez mais, entre gente extrovertida, introvertida, sorridente, não tão sorridente, ébria e sóbria. Gente estrangeira apenas eu e uma francesa de uns olhos muito curiosos e muito parecida com a Lara, irmã que a Vida me deu. Sei que entre perguntas, Coca-Colas e respostas, deu 11:50. Fomos pra rua esperar os últimos dez segundos do ano. Senti um certo nervosismo ao ver que 2008 estava realmente indo. Com ele ficariam definitivamente para trás fatos de peso e valor enormes pra mim. É que amei em 2008. Entendi nesse ano de que disposições da alma são escritos versos como os que dizem “Eu voltei por entre as flores da estrada / Pra dizer que sem você não há mais nada / Quero ter você bem mais que perto / Com você eu sinto o céu aberto”. Em 2008, ouvi o brado de Vida que vem de alguma dimensão da nossa alma quando côncavo e convexo já nem mais existem. E não se deixa um ano assim tão facilmente.

Meia-noite. O ano novo entra explodindo em fogos de artifício azuis, roxos, verdes, vermelhos e amarelos e os mesmos alemães que cruzam comigo todos os dias na rua sem dizer palavra gritam e distribuem “Feliz ano novo!” a quem passa. Desejo à Katharina, à Johanna e aos amigos dela um bom ano e todos me desejam o mesmo. No silêncio interior que na maioria das vezes consigo construir pra mim quando fora tudo é inquieto demais, orei. Sempre se pede a Deus algo quando um ano começa. Ou sempre se promete algo a Ele ou a si. Mas algumas orações são íntimas demais e merecem ficar guardadas, como num segredo entre o ser humano e Deus. É o que penso dever fazer com essa. Mantê-la guardada na minha alma para que somente Ele tenha acesso enquanto não chega o tempo de materializá-la em resposta. Mantê-la como segredo sagrado de segredos futuros e passados.

Mais ou menos 00:20 voltamos todos para o apartamento de Jan e Lina, os anfitriões da noite, e hora e meia escorreu entre conversas, Coca-Colas e músicas. Voltei para casa com a Katharina por volta de duas da manhã. Conversei, pouco antes de ser meia-noite no Brasil, com o moço que ouviu comigo o brado de Vida de que falei há pouco. Relembramos alguns segredos e criamos outros para 2009. Como fiz ao falar com Deus. Liguei para minha mãe pouco depois de ser meia-noite no Brasil. Disse a ela que a amava e ouvi seu riso lindo e que tanto me alegra. Desejei a ela um 2009 cheio de vida. Deitei para dormir com uma certa curiosidade sobre as coisas por vir, com um anseio bom dentro do peito. E com uma certeza que, embora óbvia, me impulsiona adiante de alguma forma: 2009 começou.

Susy Almeida

Colônia, 25/26.01.09

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