terça-feira, 26 de maio de 2009

Crônicas do Velho Mundo novo - Falando da vida


"(...) Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem (…)
A plataforma dessa estação é a vida (...)"
Encontros e Despedidas, Maria Rita

É difícil falar da vida porque é difícil falar daquilo que não se conhece por inteiro ou pelo menos muito bem, já que acredito não haver quem a conheça por completo. Alguns tornam a vida um tanto difícil – a dos outros e a própria – ao fazer de umas poucas vivências limitadas a um dado tempo, espaço e indivíduo medida de toda a amplitude dela. Sei que incorro neste risco ao querer falar sobre a vida, mas como ser vivente, em seus sentidos todos, acredito ter o direito dado por ela própria, já que ela própria se apresenta sempre tão arriscada.

Aqui observo muito. Tento tirar da vida o máximo que ela pode e quer me dar neste tempo. “Os dias em que eu me vejo só são dias em que eu me encontro mais”, como alguém canta. E assim acredito deixar entrar no plano da consciência o que até então era só coisa ouvida. Creio que a gente só entende algo quando aquilo que se diz entender faz parte da consciência.

Sei que a vida parece ser mesmo um vai-e-vem. Um vai-e-vem que só tem a chance de ser vivido quando se tem a chance de viver. Parece que ela às vezes dorme e, como que despertada abruptamente, se impõe com pressa e ânsia e força. E nessa pressa tanto nos exulta como solapa a alma. Parece que, ironicamente, os instantes de solapos e quedas evitam outros, enquanto os de êxtase trazem outros. Vida produz vida, e há erros que, pela dor que causam, nos conduzem a um caminho pacificado e de bem.

O caráter de transitoriedade da experiência aqui e de outras anteriores a esta de valor eterno para minha alma tem me dito bem que a vida toda é assim, algo que vai. Me vi lançada contra essa efemeridade quando me vi amando muito o homem que amo e com uma viagem marcada para um país distante dele. Como escrevi num poema pra ele, “cada minuto foi devidamente minuto”. E, embora tenhamos repetido os minutos o máximo que pudemos, numa hora todos eles se foram. Aqui, ainda em minhas primeiras horas em Colônia, João, bolsista anterior a mim, me disse: “O tempo aqui passa muito rápido. Não deixe nada pra fazer depois porque não dá tempo. E também não crie a ilusão de que isto é seu. Viva sabendo que vai acabar.”. Escuto isso na minha mente quase todos os dias, mas muito mais como metáfora da vida do que como conselho de alguém que já passou por uma experiência que estou vivendo.

Há mais ou menos duas semanas, a alemã que em setembro passado encheu a Wohnheim de vida pelo amor que não escondeu viver com seu namorado francês foi embora. Após uns três anos morando aqui – período máximo permitido pela organização estudantil – e por querer fazer um estágio na Suíça, ela passou o quarto a uma menina da Eslováquia. Uns cinco colegas a acompanharam até o carro: Kai, Maged, Lydia, Aysche e eu. Acredito que a única despedida sem aquele mal-estar próprio das despedidas foi a minha. Não que não me sentisse bem com ela, mas despedir-se de colegas não dói em nada. Difícil mesmo é dizer tchau para quem a gente sabe que vai levando na alma ou na alma e no corpo. Quando o carro dobrou a esquina, uma das meninas falou: “O ruim de se morar numa Wohnheim é porque você convive tanto tempo com as pessoas e depois elas vão embora.”. Pequena metáfora da vida?

Em meio a estes pensamentos todos, soube da morte do pai de uma amiga a quem quero muito bem. Uma semana depois, soube do nascimento da filha de uma conhecida. “Tem gente a sorrir e a chorar”, porque “chegar e partir são só dois lados da mesma viagem”... As coisas me pareceram, então, como que uma brincadeira de roda, em que uns cedem lugar aos outros porque precisam ir a outras rodas ou porque já não é mais tempo de brincar. Parece caber a quem vem entender de ritmo, compasso e tom para poder brincar melhor. Isso enquanto se dança, enquanto se brinca, porque a vida parece ser mesmo um vai-e-vem que só tem a chance de ser vivido quando se tem a chance de viver.

Susy Almeida

Colônia, 18/19.04.09

Nenhum comentário:

Postar um comentário