terça-feira, 26 de maio de 2009

Crônicas do Velho Mundo novo - Quatro vezes Hamburgo

A primeira vez em que ouvi falar de Hamburgo foi ainda no colégio. No tempo em que estava bem feliz com meu curso de inglês e nem pensava em estudar alemão. Não faz tanto tempo assim, mas uma vez que isso deve ter sido quando eu tinha mais ou menos 15 anos e já tenho mais ou menos 25, tenho a impressão de que já foi há um bom tempo. Se aquilo que se caminha no chão da existência for o que confere a sensação de distância temporal a alguns fatos de nossa vida, então já faz um bom tempo. Sei que foi na aula de História e falou-se sobre a importância econômica e política de Hamburgo para a Alemanha no que se refere às atividades desenvolvidas através do porto desta cidade lá pelos séculos XII e XV.

A segunda vez em que ouvi falar de Hamburgo foi na faculdade. No tempo em que estava bem feliz com meu curso de alemão e pensava que precisava voltar a estudar inglês pra evitar que a fluência na língua se fosse. Não faz mesmo tanto tempo assim. Tinha uns 21 anos. Mas aquilo que caminhei no chão da minha existência de lá para cá também me confere uma estranha sensação de distância temporal. Sei que foi quando Paola, amiga que ouviu a aula de História do parágrafo anterior na mesma sala de aula que eu, mudou-se para lá. A mãe havia casado com um alemão e por isso Paola passaria a morar também na Alemanha, mais precisamente em Hamburgo. Inveja! Não pela mãe ter casado com um alemão, mas por não poder conhecer a Alemanha também. Mas não foi aquela inveja pungente que aniquila a felicidade que se sente pelo outro. Não. Foi só a vontade de querer algo também para si, e não unicamente para si.

A terceira vez em que ouvi falar de Hamburgo foi logo depois de ter chegado aqui. Philipp, alemão que estudou seis meses em Fortaleza e com quem gastei algumas horas aprendendo alemão, ensinando português e mostrando a cidade, passou a morar lá com a namorada. Havia se mudado para lá com ela por razões profissionais e, claro, amorosas. Muitos alemães e alemãs vivem longe de namoradas e namorados por causa de estudo e coisas afins. Nada mais natural que querer encontrar um canto em comum onde se possa ter sossego e amor quando o período de faculdade acaba.

Quando o ano virou, coloquei como uma das metas para 2009 visitar Hamburgo. Tanto entenderia melhor aquela aula de História que nunca me saiu da cabeça quanto veria Paola e Philipp de novo. Fui. De trem. O sentimento de estar na plataforma de uma estação é mais gostoso que o de estar numa sala de embarque. Entrando em Hamburgo, no trem ainda, vi guindastes, contêineres e barcos, muitos barcos. A aula de História.

Na estação encontrei Paola de braços abertos e com uma ovelha de pelúcia na mão. Presentes de boas-vindas. Sei que já falei dela numa das primeiras crônicas, mas sempre que encontro Paola entendo o que Kevin Arnold, personagem principal de Anos Incríveis – série americana transmitida pela TV Cultura quando eu tinha uns dez anos –, quis dizer num dos episódios quando disse que “certas coisas não mudam nunca. Certas coisas permanecem”. Paola ainda tem o mesmo sorriso e o mesmo jeito de brincar. Claro, algumas de nossas brincadeiras apimentaram-se porque afinal a própria vida apimentou-se, mas o jeito com que ela as faz e reage às que eu faço ainda é o mesmo. Entre lembranças e novidades que se tem dos colegas do colégio ou conversas sobre idéias e experiências que têm composto a vida de cada uma, conheci o rio Elba, a prefeitura, o centro, o porto, o bairro onde as mercadorias eram armazenadas, um navio aberto à visitação e a avenida Reeperbahn, famosa pelo excesso de sex shops – e o que o acúmulo deles significa – e por conseguir unir gente de classe alta e baixa. É que a avenida não tem só sex shops, mas também teatros e restaurantes aonde vão, segundo me disseram, mais pessoas de classe alta – embora eu acredite que os de classe alta também vão para lá pelos mesmos motivos que os de classe mais baixa vão.

Encontrei Philipp na noite do dia em que cheguei. Ele e Jenny, sua namorada, me hospedaram. Um apartamento que declara quem e como são os donos – fotos espalhadas pelos cômodos e livros e objetos que bem entregam algo sobre a personalidade de quem os possui –, uma sala de estar cheia de livros e um sofá-cama para amigos. E gente pra rir, conversar e convidar para um jogo de futebol. No dia seguinte à minha chegada, os times Hamburger Sportverein, da Alemanha, claro, e Galatasaray, da Turquia, jogariam na cidade hanseática e a hospitalidade masculina de Philipp expressou-se através de um convite para ir ao estádio e assistir ao jogo. Não sou fã de futebol. Na verdade, nem gosto. Meu pai, ex-jogador, até tentou empolgar pelo menos uma de suas três filhas pelo esporte – carências de quem não teve “filho homem” –, mas sem sucesso. Porém nunca havia ido a um estádio e lugar onde há muita gente é, para quem estuda a língua e a cultura de um povo, pesquisa de campo! Sobretudo quando se trata de Alemanha versus Turquia. Comprei o ingresso e fui. 50.500 torcedores e um estádio que trouxe à minha memória as imagens dos jogos de Playstation. Alemães e turcos vibrando muito, naquele misto de quase raiva e euforia. Confesso que estava um tanto perdida. Chegamos atrasados e não vimos os times entrarem em campo. A cor padrão do uniforme de cada time estava trocada – alemães de vermelho e turcos de branco – e por causa desta troca estranha, admito, torci até o primeiro gol pelos turcos. Ainda precisei de uns instantes após o gol para entender quem era quem. É, pai, não deu mesmo...! No segundo tempo os alemães fizeram um gol e pude reparar meu engano. Vibrei mais que no primeiro: pelo gol e por ter entendido quem era quem!

Fui embora dois dias depois do jogo. Com uma vontade planejada para 2009 já realizada e com boas lembranças de Paola e Philipp. Uma das coisas que ocorre ao se conhecer lugares até então conhecidos só de ouvir falar é que se reformula a noção que se tem deles. O lado de lá das coisas ouvidas passa a ser seu também, ainda que brevemente. Ou as coisas anteriormente ouvidas nem vêm à lembrança após sua nova concepção fundamentar-se. E quando vêm, é só como um detalhe. Hamburgo não é mais a lembrança da aula de História nem onde Paola e Philipp moram. É o que vi, conversei e conheci. É esta crônica aqui em gestação latente e óbvia.



Susy Almeida

16/17.03.09

Um comentário:

  1. Essa cronica é a mais legal!!!
    O ruim aqui eh soh q nao dah pra deixar recado se ter que por sua conta no google...

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