Já ouvi várias vezes o nome de Umberto Eco. Menos vezes o nome de Gutenberg, mas já o ouvi. Já tive um contato, ainda que mínimo, com as contribuições destes dois homens a esse nosso mundo. O filme O Nome da Rosa e a semiótica estudada na faculdade atestam isso. E os livros de minha estante, tanto a daqui como a que está em Fortaleza, têm de um certo modo sua fonte naquele alemão nascido lá pelo século XIV.
Eco, dentre tantas outras coisas, escreveu o romance que dá nome àquele filme e vários ensaios sobre semiótica, filosofia e lingüística. Ainda é vivo e, segundo me consta, vive o fruto do seu trabalho. Vê as conseqüências das suas produções. Gutenberg, filho de um ourives, aprimorou a impressão tipográfica. Com o pai aprendera a manipular metais e criou os caracteres de metal, assim como uma prensa gráfica inspirada nas prensas de uva usadas na fabricação de vinho, atividade que ainda hoje movimenta a região de Mainz, onde viveu. Morreu no século XV e, segundo me consta, pobre. Não viu as conseqüências de suas produções.
Há pouco mais de uma semana visitei as cidades de Mainz e Wiesbaden. Era uma excursão organizada pela Universidade de Colônia. O que me fez optar por esta, já que mais três foram oferecidas, foi ver no programa “Visita ao mosteiro Eberbach, onde O Nome da Rosa foi gravado”. Eu, que assisti ao filme impressionada, fui a primeira a me inscrever. E viajei esperando muito mais ver algo em Wiesbaden que em Mainz. Mas meu coração foi um tanto tocado nesta cidadezinha pequena.
Algumas coisas aqui parecem ainda ter um certo tom de Idade Média. Lembrando Sociedade dos Poetas Mortos, em que o professor Keating pede aos alunos para “ouvirem” o que a história de ex-alunos fala a eles, parece que igrejas, vitrais e livros antigos sussurram algo. Concepções e visões de mundo de uma época inteira, de sociedades inteiras ficam evidenciadas em altares e atos de algum modo eternizados. Na catedral de Mainz há um altar barroco com duas estátuas em cada lado. No esquerdo, um esqueleto. No direito, um homem com uma foice na mão. Coisas que mostram a presença da morte nos nossos anseios e receios e parecem revelar que, sim, “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Ver uma Bíblia impressa na “máquina de Gutenberg”, como se dizia lá, me fez também sentir um certo espanto. É que imaginei aquele homem trabalhando anos a fio, criando algo que nos seria essencial, imprimindo um livro que nos é essencial e morrendo, segundo me disseram, bem pobre. E essa situação toda me sussurrou que a vida é injusta, mas também que nem toda justiça está aqui. Hoje, páginas soltas do Evangelho de João, do livro de Gênesis e de Apocalipse que ainda são impressas à maneira desenvolvida por ele são vendidas como souvenir. O primeiro capítulo do meu evangelho preferido irá comigo para casa e me sussurrará aprendizagens ainda por um bom tempo.
Em Wiesbaden, o mosteiro onde as tomadas internas do filme foram feitas mostra que ainda há muito aqui com um preciso tom de Idade Média. Quem assistiu ao filme, viu que há uma sala destinada à cópia das Bíblias, que, na época, era feita à mão. Esta sala, na verdade, era o dormitório dos monges que moravam lá. Lembrei da cena, nesta sala, em que um dos monges oculta ao outro um determinado livro – não me recordo qual – e lembrei de amigos cristãos e teólogos. Não porque eles ocultem algo. Talvez tenha sido exatamente o efeito reverso: o que durante tanto tempo foi escondido eles tentam mostrar.
Isso tudo me gritou, não mais sussurrou, que conhecer de ouvir falar é bom, mas conhecer porque os olhos vêem e a alma toca tem um valor incomensurável, eu diria. E meu coração não conseguiu fazer outra coisa que não fosse sussurrar um obrigada a Deus.
Susy Almeida
Colônia, 03.11.08
Eco, dentre tantas outras coisas, escreveu o romance que dá nome àquele filme e vários ensaios sobre semiótica, filosofia e lingüística. Ainda é vivo e, segundo me consta, vive o fruto do seu trabalho. Vê as conseqüências das suas produções. Gutenberg, filho de um ourives, aprimorou a impressão tipográfica. Com o pai aprendera a manipular metais e criou os caracteres de metal, assim como uma prensa gráfica inspirada nas prensas de uva usadas na fabricação de vinho, atividade que ainda hoje movimenta a região de Mainz, onde viveu. Morreu no século XV e, segundo me consta, pobre. Não viu as conseqüências de suas produções.
Há pouco mais de uma semana visitei as cidades de Mainz e Wiesbaden. Era uma excursão organizada pela Universidade de Colônia. O que me fez optar por esta, já que mais três foram oferecidas, foi ver no programa “Visita ao mosteiro Eberbach, onde O Nome da Rosa foi gravado”. Eu, que assisti ao filme impressionada, fui a primeira a me inscrever. E viajei esperando muito mais ver algo em Wiesbaden que em Mainz. Mas meu coração foi um tanto tocado nesta cidadezinha pequena.
Algumas coisas aqui parecem ainda ter um certo tom de Idade Média. Lembrando Sociedade dos Poetas Mortos, em que o professor Keating pede aos alunos para “ouvirem” o que a história de ex-alunos fala a eles, parece que igrejas, vitrais e livros antigos sussurram algo. Concepções e visões de mundo de uma época inteira, de sociedades inteiras ficam evidenciadas em altares e atos de algum modo eternizados. Na catedral de Mainz há um altar barroco com duas estátuas em cada lado. No esquerdo, um esqueleto. No direito, um homem com uma foice na mão. Coisas que mostram a presença da morte nos nossos anseios e receios e parecem revelar que, sim, “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Ver uma Bíblia impressa na “máquina de Gutenberg”, como se dizia lá, me fez também sentir um certo espanto. É que imaginei aquele homem trabalhando anos a fio, criando algo que nos seria essencial, imprimindo um livro que nos é essencial e morrendo, segundo me disseram, bem pobre. E essa situação toda me sussurrou que a vida é injusta, mas também que nem toda justiça está aqui. Hoje, páginas soltas do Evangelho de João, do livro de Gênesis e de Apocalipse que ainda são impressas à maneira desenvolvida por ele são vendidas como souvenir. O primeiro capítulo do meu evangelho preferido irá comigo para casa e me sussurrará aprendizagens ainda por um bom tempo.
Em Wiesbaden, o mosteiro onde as tomadas internas do filme foram feitas mostra que ainda há muito aqui com um preciso tom de Idade Média. Quem assistiu ao filme, viu que há uma sala destinada à cópia das Bíblias, que, na época, era feita à mão. Esta sala, na verdade, era o dormitório dos monges que moravam lá. Lembrei da cena, nesta sala, em que um dos monges oculta ao outro um determinado livro – não me recordo qual – e lembrei de amigos cristãos e teólogos. Não porque eles ocultem algo. Talvez tenha sido exatamente o efeito reverso: o que durante tanto tempo foi escondido eles tentam mostrar.
Isso tudo me gritou, não mais sussurrou, que conhecer de ouvir falar é bom, mas conhecer porque os olhos vêem e a alma toca tem um valor incomensurável, eu diria. E meu coração não conseguiu fazer outra coisa que não fosse sussurrar um obrigada a Deus.
Susy Almeida
Colônia, 03.11.08
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