Paris é um assombro, um deslumbramento, uma falta de ar, um aperto no peito! Paris é um susto de beleza e significado! Várias vezes me peguei surpresa e suspensa pelo esplendor daquilo que entendi ser uma das expressões do que se entende por glória humana, a saber, a cidade que se chama Paris. Pode ser que algum experimentado em viagens sinta no meu discurso um tom piegas e espantado demais. Que o sinta! As primeiras experiências nos dão mesmo tons piegas e espantados! Paris foi um sonho dentro de outro sonho! O lado de lá de alguns textos lidos e a impressão de imagens anteriormente digitais.
Chorei ao ver Paris à noite do último andar da Torre Eiffel. Lembrei minha mãezinha e a história dela, que é de certo modo também minha. E lembrei a minha própria e as inúmeras vezes em que ela foi uma mãe sensacional e me disse coisas sem as quais eu não teria tido nunca coragem pra insistir em ir além dos meus medos. Chorei. Maria, que me mostrou Paris com a propriedade de quem a conhece de ouvir falar e de viver, me perguntou num momento se estava tudo bem. Disfarcei e disse que sim. Mas meu silêncio durante a noite quase inteira fez com que ela percebesse que eu havia sido tocada. Até que ela disse: “Não é um vista que se tem todo dia, né?”. Não mesmo. E também não se vive todo dia uma vontade que até pouco tempo era distante, sobretudo uma vontade que também é de uma mãe que bem merece viver tais coisas...
O Museu do Louvre evocou em mim a música Hollywood, de Chico Buarque, que conheci assistindo a Os Saltimbancos Trapalhões:
Ói nós aqui
Ói nós aqui
Hollywood fica ali bem perto
Só não vê quem tem um olho aberto
Com a diferença de que interiormente não “ouvia” Hollywood, mas Paris. O Louvre expressa aquilo que se entende na Terra por magnitude e imponência. Lá encontrei obras e pessoas de importância reconhecida pela humanidade, inclusive Deus. Afinal, não é só em manjedouras que Ele está. Algumas pessoas fazem perguntas a Deus quando vivem momentos ruins e difíceis, de injustiça diante do bem que elas acreditam merecer e muitas vezes de fato merecem. Após um encontro com Vitória de Samotrácia, Vênus de Milo, Mona Lisa e – quebrando o paradigma – o ator Malvino Salvador, que fazia o personagem Damião em A Favorita, sentei num dos bancos do museu. Um aperto no peito. Não pelo ator – a bem da verdade, nem lembrei o nome dele ao pedir para bater um foto –, mas pelo estranhamento que aquele instante mágico trouxe. E foi quando questionei a Deus: “Como assim? O que é isso tudo?”. De fato não acredito que Deus barganhe com o ser humano, mas acredito que o que Ele nos proporciona tem fim e alvo, inclusive fim e alvo que Lhe digam respeito, e por isso O perguntei quais seriam o alvo e o fim pensados por Ele. Não, não ouvi resposta, mas senti que naquele momento tudo o que tinha a fazer era continuar vivendo meu fabuloso Xanadu e acreditar que o propósito divino se dará com a mesma naturalidade com que estar diante de Mona Lisa e Vênus de Milo se deu. Saí do museu quando ele fechou. Malvino Salvador também. Ele saiu abraçando a namorada e rindo muito com ela. Saí pensando na dimensão daquele dia pra mim. E eu que nem sonhava conhecer o tal Recife...
O Palácio de Versalhes foi meu último grande susto. Lá vivi sensações semelhantes às vividas no Louvre. Sempre que visito algo histórico, imagino as pessoas que viveram a história no instante em que ainda não havia historicidade e as histórias singulares dos que passaram por lá depois de haver historicidade. Ao me ver no meio de tantos outros visitantes, entendi que Luís XIV atinge seu objetivo de mostrar-se grande e altivo até hoje, afinal o palácio construído por ele ainda atrai, digamos assim, absolutamente. Não pude deixar de me perguntar se um dia lhe passara pela cabeça que gente de todo lugar desta Terra entraria em seu quarto, sobretudo gente sem o menor interesse em lhe prestar reverência nem mesmo concordando com sistemas absolutistas e afins. Ainda no quarto do rei, pensei que tudo deste mundo realmente passa, por mais grandioso e imperecível que possa parecer. Saí de lá pensando no que uma pessoa só, entendendo reinados e poderes de modo minimalista, é capaz de alcançar e construir. Pensei também em Deus. Me lembrei de um verso bíblico que diz que Deus preparou coisas maiores que as que o olho humano pode contemplar para aqueles que o amam. Achei Versalhes de uma grandeza silenciadora e fiquei imaginando o poder de estupefação dessa grandeza superior situada além de nossos paradigmas.
Deixei Paris com sentimentos oscilando entre a melancolia e o êxtase. Paris é, sim, um sonho de cenário, tem paus-de-araras milionários e índios cheios de saúde - o que é, então, o eixo histórico de Paris se não for um sonho de cenário? E seus metrôs automáticos nada mais são que paus-de-araras supermodernos e milionários. E seus mendigos às vezes um tanto bem vestidos que abordam turistas com um prático 'Do you speak English?' , os índios cheios de saúde da música Hollywood.
"Quem há de negar que é bom dançar, que a vida é bela neste fabuloso Xanadu?" foi o que ficou neste meu coração ao sair de Paris. Agradeci muito a Deus pelos dias lá e porque os vivi com toda a força e intensidade possíveis. Já de volta a Colônia lembrei que ainda tenho uns seis meses antes de cair da tela ou, melhor dizendo, antes de simplesmente sair dela. Diferente do que se diz em Hollywood, não tenho medo disto. Teria medo se me visse nela e não me sentisse vivendo o que me é dado viver com tudo o que posso viver!
Susy Almeida
Colônia, 03/04.03.09
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