Terminei Os Sofrimentos do Jovem Werther cansada. Ler um alemão de 1774 e com tanta densidade emocional, acrescentando-se a isso como plano de fundo este clima de inverno que, como o próprio Werther fala, é inimigo do homem, não é fácil. Se no livro o clima é sempre uma figuração do estado interior de Werther, fica fácil entender porque ele se matou no inverno. Sim, terminei bem cansada, com dor de cabeça e disposta a fazer alguma coisa que fosse leve como a leitura do livro não foi. Televisão vem à mente nessas horas como promessa de escape e, principalmente, de companhia para o jantar. Depois que a pizza ficou pronta, liguei a TV em busca deste tal escape e achei, com uma certa surpresa, o BBD, Big Brother Deutschland! Havia quatro participantes numa sala escura, dois homens e duas mulheres, que deveriam literalmente se melar com um gel bem fluido e mudei de canal. Não tive paciência pra esperar o “propósito” da prova. Queria algo leve, mas não precisava ser vazio. Além disso, suponho que não faça bem à mente de ninguém sair de Goethe e entrar assim tão depressa no Big Brother. Achei Priscilla, a Rainha do Deserto e, embora acredite que “I will survive”, mudei de canal. Achei um documentário sobre os últimos dias de Hitler que fazia uma análise psicológica de sua mente e daqueles que estavam mais próximos dele. Nada leve, mas fiquei com essa opção e ouvi um pouco mais sobre os que se atêm fixamente a idéias, vão além da determinação e obstinação, enlouquecem e (se) matam ou morrem em nome delas. De fato, nada leve.
Já no fim do programa, Aysche e Lydia, versão feminina e alemã de Batman e Robin e “rainhas” dos quartos 305 e 326, chegaram. Lydia viu o que eu estava assistindo e suas sobrancelhas erguidas acompanhadas de um movimento com a boca que sempre se faz quando se despreza algo me mostraram que pra ela há temas mais interessantes. Fiz de conta não ver, afinal cheguei primeiro e o poder – leia-se controle remoto – estava na minha mão! Além disso, não é todo dia no Brasil que a gente tem em canal aberto um programa fazendo uma análise psicológica de gente que conseguiu ir tão longe fazendo tanto mal! Para alegria dela, o programa terminou uns dois minutos depois. Passei, então, o poder adiante e Aysche foi vendo todos os canais até achar algo, no mínimo, engraçado: uma astróloga faz atendimentos na televisão, ao vivo, em tempo recorde! É mais ou menos assim:
- Olá, em que posso ajudar?
- Gostaria de saber se vou conseguir um emprego.
A astróloga vira meia dúzia de cartas e diz algo como:
- Vai demorar um pouco, mas vai dar certo. Tchau! Tudo de bom! Próximo, por favor!
O interessante é que tudo vai dar certo. E tudo é “revelado” numa fração de segundos! Mais interessante ainda é as pessoas ligarem!
Depois de rir de uns dois telefonemas, procuramos outra coisa. E outra coisa e outra coisa e outra coisa. Muito mais conversamos e rimos dos programas que encontramos do que assistimos a algo. E a leveza que eu queria estava justamente ali, em não assistir a nada, mas em ter, ainda que por uma meia hora e apenas pra rir, com quem não assistir a nada.
Susy Almeida
Colônia, dezembro de 2008
Já no fim do programa, Aysche e Lydia, versão feminina e alemã de Batman e Robin e “rainhas” dos quartos 305 e 326, chegaram. Lydia viu o que eu estava assistindo e suas sobrancelhas erguidas acompanhadas de um movimento com a boca que sempre se faz quando se despreza algo me mostraram que pra ela há temas mais interessantes. Fiz de conta não ver, afinal cheguei primeiro e o poder – leia-se controle remoto – estava na minha mão! Além disso, não é todo dia no Brasil que a gente tem em canal aberto um programa fazendo uma análise psicológica de gente que conseguiu ir tão longe fazendo tanto mal! Para alegria dela, o programa terminou uns dois minutos depois. Passei, então, o poder adiante e Aysche foi vendo todos os canais até achar algo, no mínimo, engraçado: uma astróloga faz atendimentos na televisão, ao vivo, em tempo recorde! É mais ou menos assim:
- Olá, em que posso ajudar?
- Gostaria de saber se vou conseguir um emprego.
A astróloga vira meia dúzia de cartas e diz algo como:
- Vai demorar um pouco, mas vai dar certo. Tchau! Tudo de bom! Próximo, por favor!
O interessante é que tudo vai dar certo. E tudo é “revelado” numa fração de segundos! Mais interessante ainda é as pessoas ligarem!
Depois de rir de uns dois telefonemas, procuramos outra coisa. E outra coisa e outra coisa e outra coisa. Muito mais conversamos e rimos dos programas que encontramos do que assistimos a algo. E a leveza que eu queria estava justamente ali, em não assistir a nada, mas em ter, ainda que por uma meia hora e apenas pra rir, com quem não assistir a nada.
Susy Almeida
Colônia, dezembro de 2008
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