Bom, que os alemães têm aspectos culturais bem diferentes dos nossos já sabia. Entendo aqui por diferente o que não é nada usual pra nós. Por exemplo, a gente não come batata todo dia. A gente come arroz e feijão todo dia. Batata, às vezes. Outro exemplo: a gente não coloca tapetes, rádios ou sofás no lixo. Estas coisas, normalmente, a gente usa até acabar mesmo, até vermos que a tal coisa deu seu último suspiro. Os alemães, como vários europeus de outros países, não. Comprando algo de melhor qualidade, como um PC, o "velho" vai pro lixo. Ok, não pra lata de lixo, mas vai pro lixo. Vai pra calcada esperar que alguém o leve – seja alguém que quer mesmo o produto, seja alguém da limpeza. Esse é chamado, então, Sperrmüll. Sperren significa bloquear, fechar e Müll, lixo, ou seja, é um lixo que bloqueia mesmo a calcada – pelo menos assim entendo.
Já tinha ouvido que muita gente "decorava" a casa com coisas deste lixo, só que sempre achei isso meio distante e fantasioso. Até acontecer comigo! Indo hoje com o João, o bolsista anterior a mim, dar uma volta num parque aqui perto, vi de perto um lixo desses. Um lixo arrumado. E com um sofá-cama, duas estantes, um tapete, um monitor e várias outras coisas. Olhei pro João e disse: "Ei, eu preciso duma estante…" (porque no meu quarto só tem uma cama, uma mesa e uma cadeira, além de um guarda-roupa). O João nem hesitou: "Leva pra ti, menina. Ela é tao bonitinha.". E de fato é. Ri como nunca! Poxa, como é que se poe no lixo uma coisa ainda em pleno uso!? Fuçando mais ainda no lixo, achei um rádio-relógio dentro duma caixinha com o aspecto ainda de bem nova. Pegamos as duas coisas e saímos carregando no meio da rua. Eu e João rindo muito! Coisas que não se vivem no Brasil…! Pois bem, chegando em casa, coloquei minha estante num lugar legal e fui testar o radinho, que era a sensação pra mim. Abri a tal caixinha com aspecto de bem nova e, pra minha surpresa, o radinho estava dentro do saquinho original, com um lacrezinho e com manual de instruções!
"João, isso foi pro lixo por engano!"
"Ah, pois então a gente não volta pela mesma rua que é pra dona não pedir de volta!"
"Não, vamos por lá sim!"
Testamos o sonzinho (perfeito!), deixamos as coisas e fomos de novo pelo mesmo caminho. A tal dona havia colocado mais coisa ainda! Não custava nada ver se não tinha mais nada, né? Tinha! E pasmem: uma CPU e um teclado. Lembra que eu disse que havia um monitor lá?
"João, esse bicho deve estar bom ainda."
"É, mas vamos pro parque."
Começamos a ir, até que eu disse:
"Se não tivesse comprado o laptop ontem, eu levava esse PC pra mim.
João hesitou um pouco e falou:
"Devia levar pra mim, nera?"
Começamos a rir e voltamos. Ora, dito e feito. A CPU estava tao bem guardada que só podia estar prestando! João pegou o monitor e eu fui tirar a CPU do saco. Sabe o que achei? Um triturador de carnes e legumes.
"João, olha isso aqui!!"
"Mulher, leva pra ti! Tu vai precisar!"
"Tá, mas como a gente vai carregar isso aqui tudo?"
Lembram que eu disse que tinha uma mala sem alca? João:
"Tive uma idéia! Vamos botar dentro da mala!".
E disse isso com um sorriso do canto a outro do rosto. A CPU, o teclado e o triturador foram na mala, que, apesar de não ter alca, tinha rodinhas e podia ser puxada, e o monitor foi num saco gigante que tinha lá. Deixamos meu triturador novo em casa e fomos pra casa do João, que – diga-se de passagem – é longe que nem presta, com estas coisas todas. E isso de trem!
"Tomara que esse computador preste, ao menos pra valer o esforço todo. Tomara que seja pelo menos Windows 98…"
"É mesmo, João. Tem que prestar!"
Chegamos na casa do João e ligamos imediatamente tudo. A luzinha da CPU ficou verde. A luzinha do teclado ficou verde. O monitor ficou verde e começou a fazer aquele ruidozinho característico de quando está ligando. A expectativa gigante pra ver se prestava mesmo e qual Windows era. Até que, enfim, apareceu como que num show de ilusionismo „Windows XP“!!! Dá pra acreditar?! E com todos os programas que normalmente se precisa inclusos. Com programa até demais, eu acho! Como eu disse pra ele, coisas que a gente jamais viveria em Fortaleza!
Voltando pra casa, liguei meu radinho novo enquanto ajeitava umas coisas. Achei um hit parade daqui. Guardei duas posições apenas. Em quarto lugar, ficou uma música do Coldplay, Viva La Vida, uma musiquinha até bonita, e, em primeiro lugar, pra espanto e orgulho meu, die Brasilianerin Vanessa da Mata, com Boa Sorte. Mal acreditei quando ouvi o nome com pronúncia mais que gringa. Me senti muito dona daquele momento. Parecia que a música era minha! Aumentei o som e fiquei imaginando uma possível reação da Maura, que adora essa música, ao saber disso. Enfim, coisinhas vividas na Alemanha.
Susy Almeida
Colônia, 26.09.08
Já tinha ouvido que muita gente "decorava" a casa com coisas deste lixo, só que sempre achei isso meio distante e fantasioso. Até acontecer comigo! Indo hoje com o João, o bolsista anterior a mim, dar uma volta num parque aqui perto, vi de perto um lixo desses. Um lixo arrumado. E com um sofá-cama, duas estantes, um tapete, um monitor e várias outras coisas. Olhei pro João e disse: "Ei, eu preciso duma estante…" (porque no meu quarto só tem uma cama, uma mesa e uma cadeira, além de um guarda-roupa). O João nem hesitou: "Leva pra ti, menina. Ela é tao bonitinha.". E de fato é. Ri como nunca! Poxa, como é que se poe no lixo uma coisa ainda em pleno uso!? Fuçando mais ainda no lixo, achei um rádio-relógio dentro duma caixinha com o aspecto ainda de bem nova. Pegamos as duas coisas e saímos carregando no meio da rua. Eu e João rindo muito! Coisas que não se vivem no Brasil…! Pois bem, chegando em casa, coloquei minha estante num lugar legal e fui testar o radinho, que era a sensação pra mim. Abri a tal caixinha com aspecto de bem nova e, pra minha surpresa, o radinho estava dentro do saquinho original, com um lacrezinho e com manual de instruções!
"João, isso foi pro lixo por engano!"
"Ah, pois então a gente não volta pela mesma rua que é pra dona não pedir de volta!"
"Não, vamos por lá sim!"
Testamos o sonzinho (perfeito!), deixamos as coisas e fomos de novo pelo mesmo caminho. A tal dona havia colocado mais coisa ainda! Não custava nada ver se não tinha mais nada, né? Tinha! E pasmem: uma CPU e um teclado. Lembra que eu disse que havia um monitor lá?
"João, esse bicho deve estar bom ainda."
"É, mas vamos pro parque."
Começamos a ir, até que eu disse:
"Se não tivesse comprado o laptop ontem, eu levava esse PC pra mim.
João hesitou um pouco e falou:
"Devia levar pra mim, nera?"
Começamos a rir e voltamos. Ora, dito e feito. A CPU estava tao bem guardada que só podia estar prestando! João pegou o monitor e eu fui tirar a CPU do saco. Sabe o que achei? Um triturador de carnes e legumes.
"João, olha isso aqui!!"
"Mulher, leva pra ti! Tu vai precisar!"
"Tá, mas como a gente vai carregar isso aqui tudo?"
Lembram que eu disse que tinha uma mala sem alca? João:
"Tive uma idéia! Vamos botar dentro da mala!".
E disse isso com um sorriso do canto a outro do rosto. A CPU, o teclado e o triturador foram na mala, que, apesar de não ter alca, tinha rodinhas e podia ser puxada, e o monitor foi num saco gigante que tinha lá. Deixamos meu triturador novo em casa e fomos pra casa do João, que – diga-se de passagem – é longe que nem presta, com estas coisas todas. E isso de trem!
"Tomara que esse computador preste, ao menos pra valer o esforço todo. Tomara que seja pelo menos Windows 98…"
"É mesmo, João. Tem que prestar!"
Chegamos na casa do João e ligamos imediatamente tudo. A luzinha da CPU ficou verde. A luzinha do teclado ficou verde. O monitor ficou verde e começou a fazer aquele ruidozinho característico de quando está ligando. A expectativa gigante pra ver se prestava mesmo e qual Windows era. Até que, enfim, apareceu como que num show de ilusionismo „Windows XP“!!! Dá pra acreditar?! E com todos os programas que normalmente se precisa inclusos. Com programa até demais, eu acho! Como eu disse pra ele, coisas que a gente jamais viveria em Fortaleza!
Voltando pra casa, liguei meu radinho novo enquanto ajeitava umas coisas. Achei um hit parade daqui. Guardei duas posições apenas. Em quarto lugar, ficou uma música do Coldplay, Viva La Vida, uma musiquinha até bonita, e, em primeiro lugar, pra espanto e orgulho meu, die Brasilianerin Vanessa da Mata, com Boa Sorte. Mal acreditei quando ouvi o nome com pronúncia mais que gringa. Me senti muito dona daquele momento. Parecia que a música era minha! Aumentei o som e fiquei imaginando uma possível reação da Maura, que adora essa música, ao saber disso. Enfim, coisinhas vividas na Alemanha.
Susy Almeida
Colônia, 26.09.08
Parabéns Susy, por meio do blog vai ser muito mais fácil acompanhar seu caminho em forma de texto!
ResponderExcluirAbraços
Caraca!! Tô rindo aqui que nem louca, todos olhando pra mim. O João também é brasileiro??
ResponderExcluirGeeeeente, como pode ser? Um PC no lixo. kkkkkk
Eaí, já usou o triturador?